Há frases que envelhecem mal no mesmo instante em que são ditas. “Você vai entender como é que o jogo funciona” parece ter saído diretamente de um manual imaginário de relações públicas para políticos incomodados com fotografias e vídeos.
Porque, afinal, o que um simples registro fez de tão grave? Explodiu cofres? Derrubou governos? Alterou a órbita da Terra? Não. Apenas mostrou um encontro entre figuras públicas em Brasília, justamente aquilo que fotografias e vídeos costumam fazer desde a invenção da câmera, registrar a realidade visível.
Mas eis que a imagem ganhou poderes sobrenaturais. Segundo o episódio divulgado nas redes sociais, o deputado federal Vicentinho Júnior p´re-candidato ao Governo do Tocantins, teria telefonado à jornalista Verônica Veríssimo Bolzan para questionar o registro do encontro com o vereador Vinícius Pires, atribuindo-lhe motivações políticas e anunciando medidas judiciais. O curioso é que, em tempos de redes sociais, parece que o problema já não é mais o encontro em si, mas o fato de alguém ter percebido que ele aconteceu.
O registro, coitado, virou suspeita. Talvez devesse ter pedido autorização antes de existir. Talvez devesse ter comparecido acompanhada de um assessor, uma nota oficial e um filtro favorável. Quem sabe assim não causaria tamanho desconforto.
E a frase-título fica ecoando como uma espécie de aula magna involuntária sobre poder, narrativa e sensibilidade à luz do flash: “Você vai entender como é que o jogo funciona.” O público entende, sim. Entende especialmente quando um registro aparentemente banal provoca uma reação muito maior do que a própria imagem.
No fim das contas, a velha máxima do jornalismo continua resistente, quando um vídeo ou fotografia incomoda mais do que o fato registrado, talvez o problema não esteja exatamente na câmera do celular.

